26/11/2005 19:29


E as idéias de amigos cinéfilos viram conto; e o conto vira argumento; e o argumento vira filme, o primeiro de muitos, espero... ^^

DOCE AMARGA SINFONIA

O despertador tocou. Esfregou os olhos. Mirou-se no espelho quebrado, cabelos desgrenhados. Vestiu a bata indiana, amarrou os cabelos, pegou sua bolsa e saiu em direção a agitação da cidade. O sol ardeu-lhe os olhos. O viaduto apinhado de gente cheirava ao lixo largado pelos cantos da cidade. Viu do outro lado o homem de sempre, que sorriu levemente ao vê-la passar. Como nas frenéticas imagens aceleradas dos filmes, o dia transformou-se em noite. Voltou para a pequena casa, jogando a bolsa na cama, tirando os sapatos, olhando a janela, perdida, sem rumo. Adormeceu...
O despertador tocou. Espreguiçou-se manhosamente. Mirou-se no espelho quebrado, cabelos desgrenhados. Vestiu a blusa vermelha, amarrou os cabelos, pegou sua bolsa e saiu em direção a agitação da cidade. O sol iluminou-lhe o rosto. O viaduto apinhado de gente cheirava a carne barata que queimava na velha barraca. Viu do outro lado o homem de sempre, que sorriu levemente ao vê-la passar. Como nas frenéticas imagens aceleradas dos filmes, o dia transformou-se em noite. Voltou para a pequena casa, jogando a bolsa na cama, tirando as sandálias, olhando a janela, perdida, sem rumo. Adormeceu...
O despertador tocou. Levou as mãos à cabeça dolorida. Mirou-se no espelho quebrado, cabelos desgrenhados. Vestiu a saia de seda, trançou os cabelos, pegou sua bolsa e saiu em direção a agitação da cidade. A chuva molhou-lhe a roupa. O viaduto apinhado de gente cheirava a flores da bela floricultura. Viu do outro lado o homem de sempre, que sorriu levemente ao vê-la passar. Como nas frenéticas imagens aceleradas dos filmes, o dia transformou-se em noite. Voltou para a pequena casa, jogando a bolsa na cadeira velha, tirando as botas, olhando a janela, perdida, sem rumo. Adormeceu...
O despertador tocou. Espreguiçou-se impacientemente. Mirou-se no espelho quebrado, cabelos exageradamente desgrenhados. Vestiu o macacão lilás, prendeu os cabelos num coque, pegou sua bolsa e saiu em direção a agitação da cidade. O vento desfez seu coque. O viaduto apinhado de gente cheirava ao esgoto entupido. Viu do outro lado o homem de sempre, que sorriu levemente ao vê-la passar. Como nas frenéticas imagens aceleradas dos filmes, o dia transformou-se em noite. Voltou para a pequena casa, jogando a bolsa ao chão, chutando os sapatos pra debaixo da cama, olhando a chuva, perdida, sem rumo. Adormeceu...
O despertador tocou. Puxou os cabelos com força. Mirou-se no espelho quebrado, seus cabelos nunca estiveram mais desgrenhados. Vestiu o jeans surrado, deixou os cabelos soltos deliberadamente, pegou sua bolsa e saiu em direção a agitação da cidade. O sol colou seus cabelos ao rosto suado. O viaduto apinhado de gente cheirava a protetor solar barato colado a faces macilentas. Viu o homem de sempre, não do outro lado, e sim à sua frente; só agora percebia como lhe atraía. Sorriu levemente ao passar por ele. Como nas frenéticas imagens aceleradas dos filmes, o dia transformou-se em noite. Voltou para a pequena casa, atirando a bolsa ao chão, arremessando os sapatos de qualquer jeito, olhando o infinito, perdida, sem rumo. Adormeceu...
O despertador tocou, tocou e tocou... E ela permaneceu na cama, lençóis amarrotados, pálida, olhos vidrados; imóvel, morta...

enviada por dRiGo






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