11/12/2005 05:17


Putz, quem diria que um copo de café, hemorragia de pensamentos e esforço de memória vampiresco pudessem funcionar tão bem!!! Eis o conto que havia perdido... Recuperei, e agora posso finalmente dormir em paz...

§§§{({(SOBRE CHUVA E CAFÉ]]]];;;

Acordou com o som da trovoada, 15:32 e nenhuma vontade de sair daquela cama zoneada. Ouviu o trânsito lá fora, o barulho forte da chuva. Espreguiçou-se tão demoradamente que sentiu por alguns segundos uma leve excitação entre as pernas. Olhou através da janela pensando em mil coisas, pensando em nada. Seus pensamentos alinharam-se de uma só vez: Café! Foi até a cozinha, trocando passos como um filhote de cachorro desengonçado. Serviu-se de café e sentiu lentamente o efeito animador da cafeína enquanto mirava distraído o imbé vistoso que caía em cascata ao lado da porta. Não vou trabalhar hoje, pensou decidido. Iria inventar uma gripe e conseguir um atestado com algum médico amigo de algum amigo. Foi até a tv, e passeou pelos canais; nada, nada e nada... Pegou o livro sobre a mesa, página 139: "Os garotos passaram pelos portões, ladeados por estátuas de javalis alados, e as carruagens subiram o imponente caminho oscilando perigosamente sob uma chuva que parecia estar virando tromba d´água." Deus, até no livro chove, pensou. Largou-o no chão e voltou a passos lentos rumo a cama. Esparramou-se de uma só vez, deixando os minutos passarem suaves pelo relógio. Começou a reparar no teto e instantes depois estava a contemplar as rachaduras quase imperceptíveis que sequer notara antes. Começava a contá-las quando o telefone tocou estridente. "Olá!", gritou um amigo animado. "Oi", respondeu tão baixo que o amigo continuou esperando uma resposta. "Chuva forte essa! Se à noite a chuva parar, anima dar uma saída? Que tal aquele bar que você gosta?", perguntou gritando o amigo. "Hoje não, valeu", disse ele seco e desligou o telefone de qualquer jeito. Voltou a contar as rachaduras quando ouviu o chão tremer sob patas fortes e desengonçadas que rumavam em direção ao quarto. "Não!!!". Tarde demais, o cachorro já havia esparramado seu corpo pesado pela cama como se fosse rei e aquele seu reino. Pensou em expulsar o cachorro, gritar até assustá-lo mas a preguiça falou mais forte; além do mais, do que adiantava? Ele sempre voltava, em sua mente canina era o dono do reino zoneado de edredom e travesseiros, ponto. Dedilhou os pêlos amarelos do cão e foi surpreendido por rápidas lembranças. Lembrou-se daquela noite no bar, dos amigos rindo à toa, da camisa listrada, sorriso sincero, tatuagem escondida e all star gasto; dos pequenos gestos secretos que só ele havia reparado e que fazem as noites tão especiais. A chuva parecia não ter fim, suas gotas caíam grossas como granito; linda a chuva, lindo seu som, sempre. Pensou no que poderia escrever. Sem idéias... Sem idéias... Iria ao bar, concluiu decidido. Iria tomar um banho quente, vestir-se e correr até o bar, mas não sem antes tomar um copo cheio de café. Viu o cachorro bocejar e sem que percebesse fez o mesmo. Foi até a cozinha, passadas lentas, serviu-se de café e pensou: Pronto, agora sim! Agora posso finalmente acordar! Acordou com o som da trovoada, 15:32 e nenhuma vontade de sair daquela cama zoneada...

enviada por dRiGo






Feed: Seja avisado quando este blog for atualizado :: (O que é isso?)